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Opinião

Dizem que glúten faz mal!

Outro dia eu assistia meio distraído a um programa matinal de televisão que trata de assuntos médicos por meio de entrevistas. Em geral os convidados costumam ser bons e – salvo um ou outro deslize – satisfazem as intenções do programa de divulgação e informação.
Nesse dia apresentou-se um médico gastroenterologista que eu desconhecia. Vou começar mencionando os meus preconceitos iniciais: o convidado incorria em alguns erros de português e se expressava de uma maneira exagerada e, digamos, um pouco pomposa. Até aí, tudo bem, porque cada um tem direito de ser e de se conduzir como achar melhor.
O que chamou minha atenção, entretanto, foi que o dito colega de repente começou a falar coisas incorretas sobre medicina. Comecei a prestar atenção e fiquei admirado com a falta de informação do médico.
O doutor falava sobre os “malefícios” do glúten e como a dieta geral que inclui essa mistura de proteínas pode ser potencialmente perigosa. Mencionou desordens cerebrais graves como a neuropatia idiopática que poderiam ser causadas ou agravadas por essa substância. Por outro lado, segundo ele, alguns distúrbios cerebrais responderiam muito bem a uma dieta sem glúten, tal como a esquizofrenia, o autismo e a epilepsia.
Vejamos o outro lado. Imaginem como ficariam os pacientes e seus familiares, que convivem com esses problemas graves, se alguém lhes apresentasse uma solução tão simples: a dieta sem glúten! Imaginem agora a enorme decepção deles, quando, após todas as restrições alimentares que a custosa e muitas vezes insatisfatória dieta isenta de glúten impõe, verificassem que nada mudou ou, se alguma coisa se alterou, não foi por causa da dieta.
Após as considerações acima, que por si só causariam espanto, o gastroenterologista convidado se pôs a afirmar, piscando muito os olhos e com uma postura professoral das antigas, que os problemas estão na ingestão do pão, do biscoito e do bolo. Quem quer ter uma vida saudável deveria sempre evitar o trigo, o centeio e a cevada. Além disso tudo, disse que o danoso glúten, depois de ingerido, forma uma certa pasta grudenta que adere às paredes do intestino, daí advindo complicações etc.
Antes de mais nada, gostaria de lembrar que a única real restrição ao glúten e às proteínas a ele relacionadas (que se acham presentes no trigo, centeio e cevada) ocorre na doença celíaca, ou mais raramente, em casos de alergia ao trigo mediada por IgE. A doença celíaca é uma enteropatia crônica de natureza imunológica que afeta o intestino delgado em indivíduos predispostos causando manifestações clínicas e dificuldade de absorção de certos nutrientes, sendo precipitada pela ingestão de alimentos contendo glúten. Segundo a Organização Mundial de Gastroenterologia (WGO), a prevalência da doença celíaca varia mundialmente na população adulta; em termos gerais, entre um caso a cada 100 e um caso a cada 300 pessoas. A prevalência de 1%-2% é relativamente elevada e, por outro lado, muitas vezes a enfermidade não é propriamente diagnosticada, mas isso absolutamente não indica a restrição de glúten a toda a população. Detalhes fisiopatológicos, clínicos e diagnósticos da doença celíaca fogem ao objetivo deste artigo, mas vale dizer que os indivíduos que não têm esse diagnóstico estabelecido não devem excluir o glúten da alimentação.
O que ficou da exposição do doutor gastroenterologista na televisão é que, deixando um pouco de lado os conceitos e conselhos errados que foram expostos sobre a doença celíaca, esse importante recurso de comunicação às vezes se extrapola e se propõe a um “show de medicina”. A maioria dos canais de televisão aceita tudo e muitas vezes não tem critérios seletivos estritos para a escolha dos entrevistados. Com isso, as informações podem ser superficiais, incompletas ou, como no caso descrito, erradas. Isso pode ser muito ruim e prejudicial. A televisão e o rádio são, no entanto, tribunas livres: mesmo assuntos médicos relevantes (e outros igualmente importantes), podem ser ditados de forma errada com todos os riscos diretos e indiretos que daí advêm.
É claro que existe a liberdade de imprensa e a possibilidade de cada um falar o que quiser sem nenhuma forma de censura; trata-se de um ganho extraordinário da democracia do qual não vamos abrir mão. Interessante, contudo, o corolário da proposição democrática: você pode falar ou publicar o que quiser, mas é o responsável e responde pelo que falar ou escrever. Sim, porque se fulano disser na televisão que tapioca produz cirrose, alguém pode ficar muito incomodado com esse absurdo como, por exemplo, os produtores da tapioca que podem mover uma ação contra quem falou e contra o canal de televisão (ou o programa) que propiciou a entrevista. Quando se trata de entrevistas sobre enfermidades e tratamentos, entretanto, o assunto fica mais complicado pois quem vai protestar contra declarações erradas que podem prejudicar pessoas? Não sei a resposta a essa pergunta, mas sou de opinião que os órgãos de divulgação deveriam ter mais cuidado com quem vai dar pareceres médicos e providenciar uma assessoria científica de elevado padrão para se certificar de que os entrevistados tenham credenciais efetivas para emitir opiniões. É claro que vão ocorrer casos inusitados, mas esses serão exceção e não regra.
Por outro lado, não vamos esquecer que a responsável por informações incorretas certamente não é somente a televisão ou o rádio. O acesso fácil aos assuntos de natureza médica provenientes de outras fontes também pode gerar incertezas e inseguranças. O Google, por exemplo, fornece milhares de acessos à doença celíaca, alguns bons, outros razoáveis e outros nitidamente infelizes.
Nosso papel está longe de impedir a divulgação e o conhecimento de fatos básicos de saúde, mas queremos alertar que as informações devem ser realmente baseadas para que seja prestado um bom serviço à população.

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Créditos: Joaquim Prado P. Moraes-Filho

Fonte: Revista Gastro SP